Ontem li uma entrevista feita com o narrador Guto Nejaim, do SPORTV, e achei interessante. Para aqueles que sonham em ser narrador esportivo, como eu, aí está a prova de que é preciso lutar até o último fio do cabelo para conquistar esse sonho, que se não é tão visado pelos jovens como ser jogador de futebol, muda a vida daqueles que tem o dom de narrar um jogo ou que vão adquiri-lo com o passar do tempo.
Reproduzo a entrevista, feita pelo site mídiaesporte do dia 17 de julho do ano passado.
Mídia Esporte - Para começar, nos conte sobre o início de sua
carreira na imprensa esportiva. Por quais veículos de comunicação você passou
antes de ir para os canais SporTV/PFC?
Guto Nejaim - Passei por rádios, basicamente. Estive sempre ligado com trabalhos
usando a voz. De rádios menores a difusoras, de comunitárias a religiosas, mas
o esporte sempre esteve por perto. Ainda passei pelo canal Futura. Ali não
tinha como falar de esporte (risos).
ME - Como foi que você chegou ao SporTV? Qual
foi a sua reação ao receber a notícia de que seria funcionário de um dos
principais canais esportivos do Brasil?
Guto - Foi emocionante. Nunca larguei o sonho, mas precisava
trabalhar. Estava numa empresa do ramo médico como operador de telemarketing. E
aí pintou uma vaga pra cobrir férias. Isso foi no fim de 2001, início de 2002.
Fiquei apenas um mês e meio e depois me chamaram pro “frila”, cobrindo Copa do
Mundo. Decidi pedir demissão da empresa que trabalhava, porque tinha uma força
imensa em mim dizendo que ia ficar. Banquei mesmo, contrariei família e tudo
mais. No meio da Copa, um jornalista pediu demissão! Meu chefe me chamou e
perguntou: “a vaga é de assistente de produção – começa carregando fitas e
rodando TP. Quer mesmo assim?” Falei “quero!”. E assim começou tudo lá dentro.
Com muito orgulho, iniciei no canal Campeão numa das funções onde mais se
aprende: assistente de produção. Depois fui subindo, aos pouquinhos: produtor,
editor, redator, produtor de externa, coordenador de eventos ao vivo,
reportagem, locutor e locutor esportivo.
ME - Quando foi que surgiu o sonho de ser
narrador esportivo? Tinha algum cronista em especial que você se inspirou para
seguir essa carreira posteriormente?
Guto - Sempre existiu, na verdade. Era do tipo que narrava os
jogos de botão (risos). Acho que fui uma das últimas gerações a jogar botão
(risos). Sempre quis ser narrador, e dublador também. Minha referência sempre
foi o Jorge Cury saudoso narrador da Rádio Globo. Também me espelhava muito no
Luciano Do Valle, Galvão Bueno. Quando entrei no Sportv, já tinha um carinho
muito grande pelas transmissões do João Guilherme e Sérgio Mauricio, pra depois
consolidar meu gosto e estilo com as narrações do Milton Leite.
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| Guto Nejaim: um exemplo de vida |
ME - Como é a sua rotina diária no
SporTV/PFC? Você exerce alguma outra função além de narrador?
Guto - Atualmente não. Chego umas duas horas antes do evento,
muitas vezes com tudo pronto, pego mais umas coisas com a produção (roteiro,
chamadas de programação), converso com o coordenador do evento pra saber como
será nossa transmissão e já me preparo na cabine uma hora antes. Quando o
evento é no local (estádios, ginásios, etc), aí a gente chega bem antes, porque
o processo é mais complexo, fora que tem ainda entradas nos programas do canal
– Tá na Área, Sportvnews, etc.
ME - E o relacionamento com os colegas de
emissora no dia-a-dia, existe algumas amizades ou tudo fica no trabalho e
depois cada um em seu lugar?
Guto - Existe amizade sim! Somos todos muito amigos mesmo,
torcemos pro sucesso sempre dos companheiros. Tem espaço pra todo mundo. Eu,
por exemplo, sou padrinho de casamento do João Guilherme, uma honra pra mim, já
que é um grande amigo. O excesso de trabalho, viagens, plantões às vezes
diminuem nosso contato fora de lá. Mas, se dá uma brecha, a gente pelo menos combina
“de boca” (risos).
ME - Soube também que você é dublador. Quais
filmes você já dublou? E o que é mais fácil e prazeroso: dublar ou narrar?
Guto - Ih, muitos filmes! Muitos mesmo! Dublo há quinze anos
e amo dublar. É pura arte. Difícil dizer o que gosto mais, sabia?
ME - Qual foi o momento mais engraçado ou
bizarro você já passou ao narrar uma partida?
Guto - Às vezes tem piada interna. Ou simplesmente você ri
por causa do comentarista. O Raul Quadros é uma figuraça, por exemplo. Eu fico
doido com ele (risos). Ele começa a rir quando o áudio pega aquele microfone
vazando uma série de impropérios do técnico à beira do gramado. Não posso olhar
pra ele na hora, senão caio na gargalhada no meio do jogo.
ME - Você é um narrador bastante eclético:
narra desde futebol e basquete até motocross. Qual outro tipo de esporte que
você gostaria de narrar?
Guto - Cara, eu gosto muito de esporte. Respiro isso. Acho
que um jogo de NBA seria uma coisa que gostaria muito de narrar. Ou um jogo de
Olimpíada da seleção americana de basquete... Tenho narrado - há cerca de um
ano – MMA. É bem legal, estou especializando, mas é um público muito difícil.
Digo que é o mais difícil de todos, pior que futebol no quesito “cobrança”.
ME - Como a maioria dos narradores, você
também usa um bordão: "tijolo quente". Como ele surgiu e você acha
que o que marca um narrador é o jargão que ele usa?
Guto - Bordão é o máximo! É a caricatura do narrador, a
assinatura do artista. Todos os narradores usam, como marca ou “bengala”,
aquela frase segura, que dá tempo de você olhar um texto, processar uma
informação sem gaguejar. Tenho outros bordões, mas esse e o “vamos ppro jogo!”
pegaram mais mesmo. Natural. Não dá também pro narrador ser só bordão. Senão,
ele não tem nome, fica só o bordão. Esse bordão surgiu porque lia um livro do
Roberto Sander e ele falava de um jogador que atuava no Bangu no início do
século passado, Ladislau da Guia, irmão do Domingos da Guia e tio do Ademir.
Tinha um chute potente, forte,e por isso o apelido. Achei legal, diferente e
resolvi fazer a homenagem!
ME - Para você, quais as diferenças de narrar
um jogo in loco e narrar do estúdio? Que fatores lhe beneficiam ou prejudicam
narrando dessas duas formas?
Guto - O fator do estúdio é que é perto da minha casa
(risos). Mas é muito bom estar no clima do jogo, no local, seja qual evento
for. Não é que prejudica narrar off-tube, longe disso, não há prejuízo algum.
Mas é lógico que estar no “olho do furacão” é diferente, é melhor. Estando no
estúdio, inclusive, te deixa mais próximo à produção como um todo.
ME - Dê algumas dicas para quem quer ser um
narrador esportivo. Narrar é só um dom ou existe alguma coisa além disso?
Guto - Tem essa coisa do dom, sim. Não adianta se não tem o
“borogodó”: patina mesmo. Gosto é uma coisa; a pessoa pode não gostar do seu
trabalho, do seu estilo, da sua voz, até do seu bordão, que a gente falava
antes. Mas só o fato de te prender numa transmissão inteira ou boa parte dela,
faz com que você, de certa forma, esteja no caminho certo, mesmo não sendo
aquele que o cara de casa queria ouvir. Agora, tem que estudar. Tudo. Muito.
Narrador do Sportv narra tudo, você mesmo disse. O canal é de fato Campeão, é
campeão de eventos, de cobertura. E a gente tem que estar antenado. Estou te
respondendo ouvindo a narração do Sérgio Mauricio no vôlei, por exemplo. É o
tempo inteiro ligado. E eu adoro pegar esses eventos de esportes diferentes pro
brasileiro, eu gosto de ser didático, de ensinar ou discutir sobre um esporte
pouco conhecido ou divulgado no nosso país. É bom pra gente, pra quem tá em
casa - que fica preso ao evento – e pro esporte em si. Mas, na minha opinião,
se não tiver o dom, não vai.
ME - Deixe uma mensagem para os leitores do
Mídia Esporte que acompanham o seu trabalho.
Guto - Acompanhem meu trabalho (risos). E não desistam dos
seus sonhos. Só não deixem que eles seja apenas... Sonhos.

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